O hiperbarroco

Depois de dois séculos adormecido, um certo espírito barroquista volta a emergir na sociedade hipermoderna. O Hiperbarroco surge como a amálgama e fusão entre este espírito ou modo de estar e os tempos presentes. Este conceito emerge como ponto de reflexão aglutinador, a partir do qual se torna possível pensar e representar alguns dos fenómenos e características mais proeminentes da contemporaneidade.

Vive-se numa era, de novo, opulenta, plena de excessos nos mais variados campos da vida, onde se intensifica a efemeridade gerada pela extensão da lógica de moda ao campo social criando uma sociedade de moda, “reino do efémero sistemático” (Charles e Lipovetsky, 2015, p. 20), e de obsolescência programada, onde as massas estão plenamente envolvidas, representando um ativo essencial desta nova lógica. A festa, um dos fenómenos mais centrais dos tempos barrocos, continua estando bem presente, no entanto, o que se comemora e a forma como se comemora são bem diferentes, tal como refletem os filósofos Lipovetsky e Charles:

“(…) [A] nossa época é palco de um frenesim patrimonial e comemorativo e, ao mesmo tempo, pressionada por identidades nacionais e regionais, étnicas e religiosas. Quanto mais as nossas sociedades se dedicam a um funcionamento-moda focalizado no presente, mais elas se vêem acompanhadas de uma vaga memorial de fundo. Os modernos queriam fazer tábua-rasa do passado, mas nós reabilitámo-lo; o ideal era a libertação das tradições, mas estas readquirem uma nova dignidade social. […] [A] sociedade hipermoderna é contemporânea do tudo-património e do todo-comemorativo.” (2015, p. 89-90)

Também hodiernamente não se festeja com tanta intensidade quanto nos tempos barrocos. Vive-se assente num paradoxo que se traduz num hedonismo preocupado com o advir: entre a necessidade de descompressão e fuga a um quotidiano stressante e de ansiedade generalizada, e, entre a necessidade de se poupar para um futuro incerto e pouco otimista, poupar recursos, poupar a saúde. Pensar no hoje ou no amanhã?

Hyperbaroque by Miguel RodriguesExposição “L’inauguration de hyperbaroque,Le profond, sublime et frivole” por Miguel Rodrigues, ACERT, 2017

O hiperbarroco apresenta-se então como uma perversão exagerada e aperfeiçoada do barroco, uma vez que situado numa modernidade líquida (Bauman, 2000), assume uma aparência ilusória de liberdade, de escolha, de felicidade, de ascensão social, catalisado através das hiper-realidades (Baudrillard, 1981) do quotidiano, impulsionando a sociedade atual a correr, a um ritmo cada vez mais veloz, em direção à linha do horizonte nunca atingível.

Só a festa, nos proporciona uma fuga hiperbarroca, e nos permite, por escassos momentos, não pensar no amanhã hiper-real.

Ana Fonseca Figueiredo
Abril, 2018


Referências:

  • BAUDRILLARD, J. (1981). Simulacres et simulation. Paris: Editions Galilée.
  • BAUMAN, Z. (2000). Liquid Modernity. Cambridge:  Polity Press.
  • LIPOVETSKY, G.; CHARLES, S. (2015). Os Tempos Hipermodernos. Lisboa: Edições 70.