Introdução à hiper-realidade: o caso de Joseph Beuys e Manresa

Durante o ano de 2015 e 2016 elaborei a minha dissertação de Mestrado com o título “Manresa, a performance, a narrativa e o espaço: Descodificando Joseph Beuys”. Esta dissertação girava em torno de uma performance artística que o escultor e performer (entre muitas outas coisas) Joseph Beuys apresentou em 1966 na galeria Alfred Schmela de Düsseldorf com o título de ação Manresa. O que me motivou para desenvolver este tema foi perceber que Manresa era um município próximo de Barcelona (aproximadamente a 60 km de distância) e, estando eu a residir na capital da Catalunha naquele momento, quis averiguar qual seria a relação entre a cidade, o artista e a performance. Foi um processo altamente complexo, impulsionado por sucessivas questões, dúvidas e curiosidades, levando-me a descobrir uma relação hiper-real entre a performance e o território.

Numa pesquisa inicial, ao deslocar-me e fazer investigação em Manresa, apercebi-me que tudo indicava que Joseph Beuys teria visitado esta cidade, devido à sua relação histórica com Santo Inácio de Loyola (fundador da Companhia de Jesus). Vários indícios fizeram-me chegar a esta perceção inicial. Para além de existir uma escultura no centro de Manresa conhecida como a Cruz de Beuys (o que me levou inicialmente a pensar que teria sido Joseph Beuys a elaborá-la, mas rapidamente percebi que era uma escultura de homenagem póstuma a Beuys e Inácio de Loyola), numa pesquisa superficial nos sites e blogs do município e sobre o artista encontra-se a informação que Beuys teria visitado Manresa para seguir os passos do Santo no que respeita à autorregeneração e à inspiração para a regeneração social. Ainda em conversa com uma guia turística de Manresa, esta afirmava conhecer a história da passagem do artista pela cidade, a qual era de tal relevância para a comunidade artística local que a sua imagem já tinha sido inclusive utilizada como fundo em posters de eventos artísticos desta região.

Posteriormente entrevistei um antropólogo das práticas artísticas oriundo desta região que me disse que duvidava que o artista tivesse realmente passado pela cidade, e encaminhou-me para um curador nascido no mesmo território. Em conversa com este curador, este informou-me que também duvidava da factualidade da visita de Beuys a Manresa, mas acrescentou que a comunidade artística desta cidade acreditava nesta narrativa, e tal era importante para a sua identidade (ethos) artística, existindo várias obras e intervenções artísticas que pretendem fazer alusão e até uma continuação da passagem de Beuys por Manresa, como é  exemplo da curta-metragem produzida em 2015, Canvi D’estat (Mudança de Estado), de Sergi Selvas (n. 1985), artista catalão oriundo deste município.

A dúvida do antropólogo e do curador foi o ponto de partida para o aprofundamento desta questão. Esteve Joseph Beuys realmente em Manresa? De acordo com a narrativa oficial explicativa desta performance, referida em diversos documentos, (artigos, livros, sites), Joseph Beuys teria passado por Manresa no verão antes da apresentação da performance intitulada ação Manresa, em busca de autorregeneração e inspiração, seguindo os passos de Santo Inácio de Loyola, e é então devido a esta viagem que surge a ideia e mesmo o nome da performance.

Investigando em maior profundidade, encontrei na literatura evidências controversas. Comecei a encontrar referências que Beuys teria viajado por Manresa, mas esta teria sido apenas uma viagem imaginária.

“Pilar Parcerisas (1994), Mennekes (1994) e Ruido (1995) defendem que Beuys visitou presencialmente Manresa. Szeemann (1994) menciona apenas a viagem imaginária escrita por Kirkeby, acrescentando que estes dois artistas não se conheceriam pessoalmente na época, e finalmente Rosenthal (2004) refere que Beuys e o seu amigo Kirkeby embarcaram junto com as suas esposas numa viagem imaginária a Manresa.” (Figueiredo, 2016, p. 74).

Embora não seja possível averiguar se Beuys realmente pisou Manresa, gerou-se uma hiper-realidade (Baudrillard, 1981). Um exagero ou encenação da realidade que acabou por ser percebida como factual ou real. Para além de não ser possível distinguir ficção ou realidade (esteve em Manresa? Foi só uma viagem imaginária?), este acontecimento hiper-real gerou uma nova realidade para algumas pessoas.

Os artistas oriundos de Manresa acreditam que Beuys passou pela cidade, trabalhando artisticamente sobre este assunto até aos dias de hoje. Esta hiper-realidade gerou uma “comunidade imaginária” (Anderson, 2006), cujo denominador comum é esta crença que entra nas fundações do seu ethos artístico. Esta hiper-realidade é ainda alimentada pelo turismo e património de Manresa, uma vez que no circuito turístico da cidade (circuito Inaciano) estão incluídas duas obras de arte pública (escultura) que fazem alusão a Joseph Beuys (nomeadamente a Cruz de Beuys e o Poço da Luz de Fernando Prats), contribuindo para a confusão e mistura entre realidade e ficção. Estas instalações artísticas, ao serem inseridas como pontos de interesse no roteiro turístico contribuem para a manutenção da hiper-realidade, fixando a estória (story) da viagem de Beuys a Manresa na história (history) do território.

Na hiper-realidade a ficção supera o real. Já não temos a certeza do que é real ou não. Esta ficção já não tem um referente real, mas causa uma nova realidade. As duas coisas colidem uma na outra e fundem-se. A mistura entre ficção ou o imaginário e o real é característica da nossa era.

Ana Fonseca Figueiredo
Setembro, 2017


Referências:

  • Anderson, B. (2006). Imagined communities: reflections on the origin and spread of nationalism. London: Verso.
  • Baudrillard, J. (1981). Simulacres et simulation. Paris: Éditions Galilée.
  • Figueiredo, A. F. (2016). Manresa, a performance, a narrativa e o espaço: Descodificando Joseph Beuys (Dissertação de Mestrado não editada, Programa de Mestrado em Estudos Artísticos). Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Coimbra. Disponível em https://www.academia.edu/34445397/Manresa_a_performance_a_narrativa_e_o_espa%C3%A7o_Descodificando_Joseph_Beuys